Fundamentos financeiros

Porque faturar muito não significa lucrar muito

Duplicar a faturação duplica o risco, os salários e a tesouraria que tem de adiantar. Só duplica o lucro se a margem sobreviver ao crescimento.

Os valores em euros dos exemplos são ilustrativos: não são conversões cambiais nem médias de mercado.

A resposta curta

O volume de negócios mede quanto trabalho vendeu. O lucro mede o que restou depois de o executar. Aumentar o volume de negócios só aumenta o lucro se a margem se mantiver — e o crescimento costuma trazer custos de estrutura, supervisão e exposição de tesouraria que empurram a margem no sentido contrário. Um ano maior pode dar um resultado menor.

Definições

Volume de negócios
O valor total que os clientes aceitaram pagar pelo trabalho entregue. Nada diz sobre o custo.
Lucro
Volume de negócios menos todos os custos de o gerar.
Margem
Lucro ÷ volume de negócios. O único valor que permite comparar uma obra de 28 000,00 € com uma de 120 000,00 €.

As fórmulas

Lucro = volume de negócios − custo

Margem = lucro ÷ volume de negócios

Exemplo prático: a obra maior vale menos

  • Obra A — faturação 120 000,00 €, custo 112 000,00 €, lucro 8000,00 €, margem 6,67%
  • Obra B — faturação 28 000,00 €, custo 20 000,00 €, lucro 8000,00 €, margem 28,57%

A obra A fatura mais de quatro vezes o valor da B e não gera um euro a mais de lucro. Além disso, imobiliza muito mais tesouraria, ocupa a equipa durante mais tempo e acumula mais de tudo o que pode correr mal. Pela faturação, A ganha facilmente. Pelo que fica na empresa, B é a melhor obra.

O que o crescimento realmente acrescenta

Mais faturação raramente chega sozinha. Costuma trazer uma segunda equipa, um diretor de obra, mais uma viatura, mais licenças de software e um prémio de seguro maior — tudo custos de estrutura, tudo permanente, tudo a pagar quer o trabalho do próximo trimestre apareça ou não. Por isso o crescimento tem de ser confrontado com o ponto de equilíbrio, e não celebrado por si só; veja ponto de equilíbrio do empreiteiro.

E faturação também não é tesouraria

A receita é ganha quando o trabalho é entregue; o dinheiro chega quando o cliente paga. Um mês de faturação recorde pode coincidir com a conta vazia, o que é outro problema, com outra solução — tesouraria vs lucro trata disso.

Erros comuns

  • Definir um objetivo anual de faturação sem nenhuma margem associada.
  • Aceitar uma obra grande de margem baixa "para manter a equipa ocupada" sem verificar se a margem cobre os custos de estrutura dessas semanas.
  • Comparar obras de dimensões diferentes pelo lucro em euros.
  • Medir só as obras que correram bem e nunca fechar o ciclo com o orçamentado vs real.

Respostas rápidas

Uma obra maior pode valer menos do que uma mais pequena?
Sim. Uma obra grande com margem apertada pode gerar menos lucro em euros do que uma obra pequena com margem saudável, consumindo muito mais tesouraria e risco.
Crescer a faturação é alguma vez o objetivo certo?
É um meio, não um fim. O crescimento compensa quando a faturação adicional traz uma margem que ainda cobre os custos de estrutura que o próprio crescimento cria.

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